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segunda-feira, janeiro 21, 2008

Histórias pequenas

O menino do lábio roxo nasceu no dia de Nossa Senhora. A mãe, confiada em Santos, Demónios e demais criaturas, acha-o investido de uma graça divina, para sempre protegido dos males do mundo. O menino do lábio roxo vive num mundo metade verdade, metade fantasia, e é muito díficil perceber de que lado do mundo está quando fala. Hoje, diz-me que é muito díficil falar disto, enquanto me mostra como se empurra uma criança para cima de uma cadeira até ficar o lábio com sangue, como se dão quatro palmadas nas costas e três no rabo, porque se arrumou devagar os fios da playstation. O menino do lábio roxo nasceu no dia de Nossa Senhora, que não tem conseguido salvá-lo da própria mãe.
Vitória, vitória acabou-se a história. História contada, história acabada.

A menina pequenina que usa óculos vive com a avó, a quem parece acontecer tudo, e que não se importava de entregá-la a quem cuidasse bem dela. Também à menina que usa óculos tudo parece acontecer: a mãe que morre, o pai entre acidentes, doenças e consumos, a avó triste, as negligências por que já passou. A menina pequenina que usa óculos é tão pequenina que às vezes parece um pássaro, também pequenino, que vai desatar a voar devagarinho.
No caminho para a cidade, não me parece que conduza demasiado depressa, embora ache que nunca nos parece que vamos depressa, ou íamos devagar. Um pássaro passa-me em frente ao vidro. Bato-lhe e cai. Volto atrás, para socorrê-lo. O pássaro tem a barriga cor de laranja. Já morreu, a líndissima barriga exposta ao céu, inerte. Como para provar que alguns pássaros pequeninos não se podem salvar.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Da Temporalidade do Natal (III)

Ao setting anterior, junta-se o Miguel.
-Miguel, quando é o Natal?
- Ah, falta muito.»
Acrescenta a Beatriz:
- Faltam trinta dias.
- Porra, é muito.

Da Temporalidade do Natal (II)

- Lara, Beatriz, quando é que é o Natal?
- Ah, a minha mãe disse que era daqui a pouquinho tempo.
- A minha mãe disse que falta muito.
- Pouquinho!
- Muito!
- Ah, faltam dez dias.
Contam até dez, em coro, exibindo a recém adquirida competência de «contar». Eu digo que falta «mais dias». Contam até vinte. E prosseguem: vinte e um, vinte e dois, (...), vinte e oito, vinte e nove, vinte e dez.

Da Temporalidade do Natal (I)

Sala dos 5, mesa de desenho.
-Oh, Inês, sabias que o Natal é amanhã?

sábado, novembro 03, 2007

Os homens são todos iguais (II)

Num destes dias, ao sair da minha sala, lançava-me a Daniela um dos seus sorrisos mais irresistíveis. Aproximei-me para falar com ela, pedir um beijinho, ver as roupas novas e ouvir qualquer coisa que fez a mãe, o costume.
Apareceu o Tomás, e disse-me a Daniela:
«O Tomás é meu namorado, sabias, Inês?»
O Tomás sorri, e eu pergunto aos dois:
«Porque é que vocês são namorados?»
O Tomás volta a sorrir, encolhe os ombros e diz:
«Eu não sei.»
E a Daniela, com a clarividência precoce das mulheres que, estou em crer, se inicia aos cinco, esclarece:
«É que o Tomás já me deu um beijinho na boca, mas também deu à Beatriz António e à Margarita.»
E o Tomás, iluminado então pela clarividência da Daniela, acrescenta:
«Sim, eu namorava com as três: com a Daniela, com a Beatriz António e com a Margarita. A Margarita chateou-se comigo e agora só tenho duas namoradas. Mas acho que no próximo mês já consigo arranjar outra.»

Os homens são todos iguais (I)

No príncipio deste ano lectivo, quis o meu ego securizar-te e apaziguar-se com a certeza de que as crianças do sítio onde trabalho não teriam esquecido o meu nome durante as férias.

Na sala dos 3, está-se no exercício da função simbólica em plena forma. A possibilidade de representar algo por alguma coisa permite à criança brincar, desenhar e fingir. Neste universo do faz-de-conta, um adulto disponível para comer e beber coisas imaginárias servidas em chávenas e pratos de plástico colorido vale muito, e era nessa orgia alimentar que eu estava quando perguntei ao Machado:
«Como é que eu me chamo?»
Confuso, respondeu-me:
«Teresa»
E eu neguei, rejeitando o «café», com que a dizer só bebo o «café» da chávena de plástico quando souberes o meu nome.
«Catarina»
«Não»
Um sorriso traquina, traquina.
«Chamas-te menina.»

E bebi o «café», a rir-me.

sexta-feira, outubro 26, 2007

«Agora, vamos brincar aos bebés»

O Miguel faz de bebé. A Inês dá-lhe papa, põe-lhe creme, chega-lhe o bacio e dá-lhe comprimidos porque está com febre.
«Agora, o bebé és tu.»
A Inês deita-se na «cama dos bebés». Chora. «Quero leite.»
«Oh, tu eras um bebé que não fala. Deixa-me lá ver onde é que está o leite.»
E o pobre bebé crescido, vulgo eu, deitado em cima de três almofadas num tapete ranhoso, aponta o leite.
«Ah, tu também eras um bebé que não se mexia. E não bebes vinho, não bebes café, não comes chocolate. E não gostas de bananas, e o jantar é bananas.»
Criança precisa de resolver conflitos. Mas psicóloga sofre.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Sabedoria Infantil (I)

A Marta estava a desenhar motivos marítimos, com um mar, golfinhos, peixes e polvos.

Perguntou-me:
- Posso desenhar flores aqui no mar?
- Podes se quiseres, mas no mar existem algas, que são as ervas do mar.
- Olha, vou desenhar flores aqui na mesma, porque alguém podia ter apanhado e deitado as flores ao mar. E era poluição.

Impossível não rir. Ao ver-me rir, acrescentou:
- Olha, eu sei o que é a poluição porque a Rute explicou, tá bem?