Sala dos 5, mesa de desenho.
-Oh, Inês, sabias que o Natal é amanhã?
quinta-feira, novembro 22, 2007
Da Temporalidade do Natal (I)
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Luz
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11:07 p.m.
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domingo, novembro 18, 2007
Insultos (I)
E queria aqui insultar publicamente os senhores que inventaram o Mars Delight. Não se fazia uma coisa tão demoníaca e capaz de controlar omnipotentemente os nossos pensamentos: se comemos, pensamos «merda, comi, ai as minhas pernas»; se não comemos, pensamos em comer.
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Luz
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4:01 p.m.
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domingo, novembro 11, 2007
Golegã
Vem, por favor, buscar-me num cavalo preto ou branco, porque de outra cor não teria, o cavalo, a dignidade de cor necessária ao momento, vem buscar-me e debruça-te sobre mim e sobre o chão, perdendo, por um instante, a compostura que tens sempre em cima da sela, apenas um instante suficiente para me enlaçares, apanhares do chão e içares para cima do nosso cavalo.
Vem, por favor, buscar-me e senta-me não atrás de ti, mas, definitivamente, à tua frente, à frente na sela, para que, necessariamente, para nos conduzires, tenhas de juntar a tua cabeça à minha e os teus braços ao meu flanco, abraçando-me para chegar às rédeas, colando a tua cabeça à minha enquanto procuras ver o nosso caminho para nos ires conduzindo.
Aproveita, que estará o meu coração encostado às tuas costas, o meu corpo cingido pelos teus braços e o meu ouvido encostado à tua boca e promete-me, promete-me, mas sem perderes nunca a posição correcta do pé no estribo, a altivez das costas direitas mas não rígidas, a compostura do boné, promete-me, que me hás de amar para sempre, por muito que para sempre seja muito tempo, mas promete-me que para nós queres para sempre, enquanto o nosso cavalo branco ou preto continua a caminhar a passo, guiado pelas tuas rédeas, passo atrás de passo, toc, toc, por cima do alcatrão preto, pelo meio do nevoeiro de princípio de dia e fim de madrugada, a luz nascendo na vila da Golegã, toc, toc, passo, passo, para sempre, para sempre.
Ps: Para provar taxativamente à L. que nem sempre escrevo na primeira pessoa a referir-me a mim. :)
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Luz
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9:52 p.m.
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terça-feira, novembro 06, 2007
Acho a testosterona uma hormona um bocado estúpida
Porque já não suporto, por um lado, ver novecentos meninos de escola primária e secundária aos pontapés, murros e afins uns aos outros, vamos ver quem é mais macho e manda na capoeira; por outro, os meninos que brincam com meninas, demasiado femininos e mariquinhas também não me parecem bem.
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Luz
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7:43 p.m.
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sábado, novembro 03, 2007
Os homens são todos iguais (II)
Num destes dias, ao sair da minha sala, lançava-me a Daniela um dos seus sorrisos mais irresistíveis. Aproximei-me para falar com ela, pedir um beijinho, ver as roupas novas e ouvir qualquer coisa que fez a mãe, o costume.
Apareceu o Tomás, e disse-me a Daniela:
«O Tomás é meu namorado, sabias, Inês?»
O Tomás sorri, e eu pergunto aos dois:
«Porque é que vocês são namorados?»
O Tomás volta a sorrir, encolhe os ombros e diz:
«Eu não sei.»
E a Daniela, com a clarividência precoce das mulheres que, estou em crer, se inicia aos cinco, esclarece:
«É que o Tomás já me deu um beijinho na boca, mas também deu à Beatriz António e à Margarita.»
E o Tomás, iluminado então pela clarividência da Daniela, acrescenta:
«Sim, eu namorava com as três: com a Daniela, com a Beatriz António e com a Margarita. A Margarita chateou-se comigo e agora só tenho duas namoradas. Mas acho que no próximo mês já consigo arranjar outra.»
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Luz
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2:50 p.m.
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Etiquetas: Coisas de Criança
Os homens são todos iguais (I)
No príncipio deste ano lectivo, quis o meu ego securizar-te e apaziguar-se com a certeza de que as crianças do sítio onde trabalho não teriam esquecido o meu nome durante as férias.
Na sala dos 3, está-se no exercício da função simbólica em plena forma. A possibilidade de representar algo por alguma coisa permite à criança brincar, desenhar e fingir. Neste universo do faz-de-conta, um adulto disponível para comer e beber coisas imaginárias servidas em chávenas e pratos de plástico colorido vale muito, e era nessa orgia alimentar que eu estava quando perguntei ao Machado:
«Como é que eu me chamo?»
Confuso, respondeu-me:
«Teresa»
E eu neguei, rejeitando o «café», com que a dizer só bebo o «café» da chávena de plástico quando souberes o meu nome.
«Catarina»
«Não»
Um sorriso traquina, traquina.
«Chamas-te menina.»
E bebi o «café», a rir-me.
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Luz
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2:40 p.m.
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quinta-feira, novembro 01, 2007
Parabéns, Margarida

Quando conheci a Margarida, ela trazia um fio como se usava na altura, que condizia com uns brincos impecáveis. Não sabíamos bem se queríamos a Margarida como caloira, porque, bolas, as caloiras dão trabalho. Nessa altura, a Margarida tinha um telemóvel cor de laranja, cor a que chamávamos império,acho que devíamos ser parvas, psicologia é um império, um império. Foi uma boa escolha termos ficado com a Margarida, mas não por causa do telemóvel.
Cozinhei à Margarida pipocas, sopas e caldeiradas de lulas, embora ela não soubesse varrer, comprar dois tomates maduros e não quisesse usar cornos ou trincar nabos. Uma vez fomos ao estádio e a Margarida veio-se embora a meio do jogo para não sujar a saia na relva, porque estávamos sentados no chão.
Com o tempo, a Margarida foi-se-me revelando o que é: uma caloira sempre disposta a ajudar os seus amigos, sempre de sorriso nos lábios. Uma rapariga impecável. Impecável no cabelo, e não sei o que usa ela, ou melhor, sei, é shampoo anti-oleosidade da farmácia, mas não sei como lhe fica sempre tão impecável o cabelo. Impecável na saia, no mocassin, na écharpe e nos brincos. Impecável nos bordados, nos trabalhos manuais, nas pinturas, nas agendas e livrinhos de receitas. Impecável a pintar manicures francesas nos pés de madrinhas ou a acompanhá-las a cabeleireiros. Impecável a encontrar as pechinchas da comida, como as bolachas mais deliciosas e baratas, 40 cêntimos este pacote, madrinha. Impecável na intenção de tornar os seus amigos «direitos que nem um fuso». Sobretudo, impecável a dar mimos, impecável de coração. E é mesmo por isso, e por nenhuma das perfeições anteriores, que eu gosto da Margarida: é impecável de coração.
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Luz
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9:55 p.m.
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Etiquetas: Gosto taxativamente de ti
