Uma boa cabeleireira é como uma religião. Eu tenho uma nova, chamada Xana. Não corta cabelos, só pinta, porque sempre gostou de artes e acha os descolorantes e os cabelos semelhantes às telas e às tintas. A Xana deixa o cabelo sem manchas, loiríssimo e muito bem. Ela é a minha nova religião.
Contudo, desçamos ao pormenor. A Xana mora na Bobadela, num bairro estranho onde só se chega de GPS, mesmo à segunda vez. Pinta-se o cabelo na sala ou na cozinha dela, habitualmente com o filho de 4 anos agarrado a uma consola de jogos e com a avó em pijama, deitada, rebolando no sofá. A casa é gira, mas está cheia de fotos do casamento da Xana com um indivíduo gordo. A Xana também não é linda, mas pinta bem o cabelo.
Estive com a Xana no Verão. Contou-me, com um entusiasmo insuspeito, que passara as férias na Costa da Caparica, num atrelado que tem no parque de campismo. O parque de campismo da Costa é muito bom, garante a Xana. Até porque, no atrelado que lá tem, há móveis de cozinha feitos pelo pai e pelo marido gordo das fotografias. Ninguém mexe em nada no parque de campismo da Costa, mesmo durante o Inverno, e o maior consolo da Xana é poder tomar um banho quente, quando vem da praia por volta das 16h. Se vier mais tarde, o banho é a correr e com pouca pressão.A Xana estava particularmente satisfeita, porque a sobrinha, de 14 anos, já ajuda com as tarefas domésticas e lava a loiça. O gordo da fotografia, naturalmente, não faz nada.
quinta-feira, outubro 16, 2008
Um Atrelado na Costa
Publicada por
Luz
à(s)
7:17 p.m.
0
comentários
sexta-feira, junho 20, 2008
Fino uma merda
Viver na linha é torturante, por vermos pessoas todos os dias na praia às 8h30m da manhã, enquanto nós estamos no trânsito a caminho do trabalho.
Publicada por
Luz
à(s)
1:03 p.m.
0
comentários
Etiquetas: Lisboetices
quarta-feira, junho 04, 2008
Amarelo
Quero um vestido amarelo.
Publicada por
Luz
à(s)
5:33 p.m.
0
comentários
Etiquetas: Pensamentos obsessivos
Ela
A Andreia tem os olhos demasiado azuis. Está magra e emagreceu demasiado, porque agora os ossos querem sair-lhe demais da pele que lhe sai de dentro das calças da Bershka.
Está demasiado cansada e é por isso que os olhos azuis têm sempre um bocadinho escuro em volta, mesmo quando a Andreia sai e apanha sol. Se bem que a Andreia jura que não gosta de sol.
Está demasiado triste mas raramente consegue chorar, e corta a tristeza com um x-acto nos pulsos, nos braços e na barriga, em cortes fundos, regulares, doridos.
Às vezes senta-se e fica calada, com toda a demasiada tristeza e todo o demasiado cansaço sentados à espera, quase quietos, quase calados. Saem-lhe as meias dos ténis, demasiadas meias porque os ténis magoam; saem-lhe os cortes dos braços; raramente lhe sai a tristeza de volta.
A Andreia tem os olhos demasiado azuis e demasiada vontade de morrer.
Publicada por
Luz
à(s)
5:25 p.m.
0
comentários
Etiquetas: Coisas da Secundária
terça-feira, maio 20, 2008
Pina Bausch
Pois que eu estive (estive! estive!) no CCB a assistir ao Nefés e, sobretudo, estive (ESTIVE!) no São Luís a ver a grande senhora dançar.
Só me ocorre dizer que quem nunca viu o Caffé Muller nunca viveu.
Publicada por
Luz
à(s)
6:38 p.m.
0
comentários
Etiquetas: Been There, done that
quinta-feira, maio 15, 2008
We used to be so happy
We used to be so happy que às vezes eu sentia que tantas coisas não cabiam, não podiam, caber em mim. Que às vezes sentia que flutuava - e flutuar era bom - e tinha medo do chão.
We used to be so happy, o tapete cor de laranja da sala, as plantações de legumes na varanda, os jantares a ver o rio lá ao longe na janela da marquise, o temos-uma-vida-tão-boa.
I used to be so happy com a tua mão no meu cabelo e achava sempre - ainda acho- que mais ninguém sabe mexer-me assim no cabelo e fazer-me quase morrer de insuflamento e amor apertada num abraço.
We used to be so happy em jogos, biscoitos, vodka e lutas pela posse do colchão, em arrumações da nossa casa e em certezas absolutas, sempre, sempre.
We used, oh fuck, used to be so happy.
I miss you.
Publicada por
Luz
à(s)
10:09 a.m.
0
comentários
quarta-feira, abril 16, 2008
Been there, done that ou da vida depois do salto
Num processo «se é para ser, que seja já», acabei o meu último Domingo a bordo de uma avioneta raquítica, sentada num bocado de chapa forrado a alcatifa cinzenta, com um tipo com um fato esquisito e um início de alopecia a segurar-me ao colo. O tipo era simpático, mas era menos simpática a comandita de uns dez rapazolas que se sentou ao lado, com umas piadas muito giras. A verdade, mesmo a verdade, é que ali estava eu, na estranha avioneta, sentada ao colo de um estranho simpático mas com pouco cabelo a tentar acalmar-me. E ainda paguei 125€ pela piadinha. É isso mesmo: este fim de semana decidi voar e atirei-me de uma avioneta a 3km do solo, com um desconhecido acoplado que levava nas costas o pára-quedas. Perguntarão vocês o que se sente. Me-do. Pâ-ni-co. «Se eu não for, olhe, mande-me, não me deixe passar vexames» ou «Podemos fazer isto rápido?». Acho que os pára-quedas são como a coca-cola: primeiro estranha-se, depois entranha-se. E, saída a porta da avioneta maluca, estendido o corpo a 200km/hora por cima de nuvens cinzentas, abertos os olhos (sim, fechei-os a sair da avioneta, que mariquinhas), aberto o pára-quedas e diminuído o medo, poucas coisas serão tão... tão. Chegada a terra, só me ocorreu dizer «obrigada» ao tipo de pouco cabelo, que até pancadinhas me deu no braço até saltar. Obrigada, não pelas pancadinhas mas pelo medo, pela paisagem, pela experiência. Mas sobretudo pela certeza (fugaz: 15 minutos de adrenalina, não mais), pela certeza absoluta, de estar mesmo, realmente viva.
Nota: Aeródromo de Évora - vocês merecem! :)
Publicada por
Luz
à(s)
2:59 p.m.
2
comentários
Etiquetas: Been There, done that
