Ando há muito tempo a tentar dizer-to e a procurar maneiras bonitas, suaves, doces e simples. Ando à procura delas mas faltam-me as palavras, encontro-as e acho-as imperfeitas, passo-lhes o pano e não reluzem, sempre opacas pelo pó.
Tento dizer-to todos os dias, filho, todos os dias em que te vejo chegar da escola com a altura pequena mas promissora dos teus dez anos (estás quase da minha altura, também não sou muito grande), a mochila às costas e o bolso cheio de cartas, quando depois da escancarada porta te atiras nos meus braços berrando que hoje marcaste três (três!) ao frango do Ricardo, não defende nada, também!
Ando a tentar dizer-to quando à noite te deitas na tua cama de criança, o edredão dos barcos, os automóveis de brincar em corridas imóveis pelo chão do quarto, estendes os braços e me dás o beijo do antes de dormir, adormeces do mundo dos grandes e entras no sonho do mundo dos pequenos.
E era sobre isso mesmo, filho, que te queria falar. Gosto de ti e tenho medo. Medo que cresças e medo que fiques sempre pequeno, medo que engulas o mundo ou que sejas engolido por ele, e tem-me atormentado a ideia de te achar a mochila demasiado larga ou pesada, filho, para o tamanho das tuas costas.
Banda Sonora: Angel Standing By, Jewel
Acrescento(s): A propósito do meu irmão mais novo, que agora carrega uma média de cinco livros por dia na mochila nova. Ai, galinha! :)
quarta-feira, setembro 28, 2005
Vasco
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Luz
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12:06 p.m.
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sexta-feira, setembro 09, 2005
Da Falta de Água e Outros Afins
A propósito de chuva a cair em flocos pela janela, da falta de luz solar e quente, do ar deprimente da paisagem de Inverno, ocorreu-te, Beatriz, que a vida talvez não preste.
Por cima da vidinha pequena e triste, do rotineiro ciclo dos dias, por cima das estradas rebentado em trânsitos e de tudo o que as pessoas transitam, acentuou-se-te a percepção clara e amarga de que a vida não presta.
Do amargo dos dias, da rapidez dos afectos, da falta sufocante de espaço físico e da falta asfixiante de espaço num coração alheio onde caibas e te acomodes, chegou-te a certeza de querer morrer.
Ninguém sentiu a tua falta, Beatriz, ou ninguém morre sozinho?
Banda Sonora: «Laços», Toranja
Acrescento(s): É do Outono a chegar, deixa tudo a espumar-se em considerações ridículas e com um humor desgraçado. Fototerapia para Portugal inteiro, oh faz favor! :)
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Luz
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1:08 p.m.
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sábado, setembro 03, 2005
Íris
Foi qualquer coisa nos teus olhos, a certeza absoluta não saberia de quê. Que tenham a cor do rio ou que sejam fim de mim...
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Luz
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7:24 p.m.
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sexta-feira, agosto 19, 2005
E depois...
... de tanto postar no mesmo dia, vou descansar para o Algarve. Ah, vou!
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Luz
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3:13 a.m.
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Post-it
«You find yourself falling down
Your hopes in the sky
But you heart like grape gum on the ground
And you try to find yourself
In the abstractions of religion
And the cruelty of everyone else
And you wake up to realize
Your standard of living somehow got stuck on survive
When you're standing in deep water
And you're bailing yourself out with a straw
And when you're drowning in deep water
And you wake up making love to a wall
Well it's these little times that help to remind
It's nothing without love»
«Deep Waters», Jewel
Nota 1: Adoro Jewel, sobretudo em princípio de carreira. Não só pela fabulosa voz, mas sobretudo pela maturidade afectiva das letras, por lavar a alma e enchê-la de orientações morais bonitinhas.
Nota 2: Post-it!
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Luz
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2:59 a.m.
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Elas
Está frio, um frio gelado cheirando a tristeza pelo espaço do quarto. Escolhida na cama, ouves enfim passos. Chegou, sabe-te a medo. Talvez venha só e traga só mais uma noite com ele, talvez tenha trazido tatuagens arranhadas de outro corpo perto dele, talvez seja só mais um amor volátil e etílico. Distintitamente, os passos, as botas pesadas atravessando o caminho até casa, a calçada geométrica que escolheste antes de se casarem, tudo, Teresinha, tudo rigorosamente a teu gosto. E agora a chave, metida no porta-chaves em pele monogramada que lhe ofereceste no último aniversário, quando toda a família veio almoçar, rodando na fechadura.
Hoje, veio com ele qualquer estranha pessoa. Libertada a vapores, vodka, gin. Veio com ele a pessoa pior que ele pode ser e ocorre-te pensar em como amas o lado de lá da lua que ele é, enquanto cerra a mão que te cai na cara e te sabe, distintamente, a sangue.
Há qualquer coisa em vocês de estatuto modelar. A casa modelo, o último e discreto automóvel familiar potente de marca alemã. Os filhos modelo, absolutamente educados e com notas esplêndidas frequentando os almejados colégios onde o ensino é melhor. O perfumado cão, as férias na praia fora de Portugal. As amigas do chá, do bridge, os amigos do golf.
Ao pormenor, qualquer coisa de modelar em vocês dois. A gentileza das flores e das gravatas formatadas em presentes, a rotina de deixarem a mão por cima do ombro um do outro em público, o passearem de braço dado. A atribuição masculina de escolher tecnologia, a orientação dos roteiros gastronómicos familiares femininamente conduzida. E, claro, o modo como cada um diz «o meu marido», «a minha mulher» com um sorriso não demasiado esboçado nem excessivamente singelo.
Hoje, Sábado, é dia de «fazer amor», porque amanhã é Domingo. E, enquanto cerras o cabelo num apanhado em gancho de tartaruga, pões perfume atrás das orelhas e vestes a camisa de seda negra, vais repetindo a ti própria, esperando que te tão repetido se torne verdade, que o amas.
Saíu de casa e, mal bateu a porta, apertou-se-te o coração em qualquer coisa indefinida já chamada saudade. Claro, nunca ninguém pode estar sempre junto, mas na irracionalidade estranha que não te conhecias e é amor, nunca ninguém não faz sentido. Esperas então, decides sair e viver também a vida cinzenta que há para lá das muralhas do castelo que é vosso. E, quando sais, enfim, de casa, já a correr para o autocarro, atrasada tens a certeza. Que logo, mais tarde, quando se voltarem a ver vão sentir-se finalmente em casa quando se abraçarem e sabes, mesmo, que o amas.
Banda Sonora: «Better Man», Pearl Jam
Ps. Um beijinho aos porcos que cantaram isto de Espanha a Casegas (pelo menos cantam bem) e, além de me deprimirem nesse dia, me fizeram amar esta música (quase) antes de a conhecer.
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Luz
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2:18 a.m.
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terça-feira, agosto 16, 2005
Caminhos
«olá eu sou a Ana. sou uma falhada... apaixonei-me perdidamente por um gajo q n me liga pevas e q tinha namorada, acho o primo dele um naco poderoso e sexy e andei aos beijos c o melhor, de quem gosto agora. ah! esqueci-me de referir q o melhor amigo tem namorada e quer q o tempo resolva tudo».
Extraído de uma conversa de messenger num qualquer dia quente de Agosto. Cada vez mais me convenço que cada vida é um caos.
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Luz
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9:52 p.m.
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